Robert

Olá, como tem dormido? Hoje venho até vocês narrar uma história que me contaram, dizem que é baseada em fatos reais…

A desgraça vem para todos, para alguns de forma sútil, quase que invisível. Para outros, como uma tempestade, uma explosão avassaladora. Em muitos casos ela acontece por fora, no físico, no exterior, atingindo até mesmo quem nem tem culpa. Já outras vezes, se manifesta por dentro, na alma, corroendo as estruturas do pensamento, desconstruindo os conceitos sobre o que é real, dando origem, aos verdadeiros pesadelos…

Cândido não sabia mais o que fazer. Já fazia mais de um mês que – por todas as noites –, tinha o mesmo sonho ruim. Chegava em casa depois do trabalho e logo ao entrar, tinha uma das visões mais horríveis de sua vida. Via sua mãe morta. O corpo esticado no chão da cozinha, pernas e braços abertos. Muito sangue escorrendo da boca e a garganta dilacerada. Um verdadeira visão dos infernos.

As coisas pioravam quando o som de uma risada chegava aos seus ouvidos. E Cândido, ao procurar pela origem do som, acabava dando de cara com o assassino de sua mãe, um convidado que entrara em sua casa sem ao menos receber o convite. Um homem, ou pelo menos o que parecia ser um.

Era um sujeito estranho. Não possuía cabelos e a pele era pálida. Os olhos negros, combinando com os trapos que vestia. Mas o que mais assustava eram seus dentes. Enormes dentes afiados e a língua, roxa e grande, que dançava dentro de sua boca. A criatura sorria e lambia os dedos lambuzados de sangue. É um demônio – pensava Cândido. – Só pode ser.Então o intruso olhava para ele e dizia com uma voz áspera, que chegava a doer os ouvidos:

– Chegou tarde demais Cândido!- e ria. O riso da loucura. Petrificado, Cândido não conseguia se mexer, tudo aquilo era demais para sua franca mente.

Petrificado, Cândido não conseguia se mexer, tudo aquilo era demais para sua franca mente. O demônio levantava da cadeira e seguia em direção ao homem, que não conseguia sair do lugar. A vítima sentia o cheiro do monstro, era um cheiro azedo, que lhe lembrava os postos de saúde que frequentava quando pequeno. Mas mais do que isso, era o cheiro do esquecimento, do vazio, do mofo. Paralisado Cândido sentia a língua do monstro percorrendo sua garganta. Era a pior sensação do mundo.

Desconfiava de que teria o mesmo destino de sua mãe  morrer com a garganta arrebentada depois de levar algumas mordidas daquele enigmático ser. Mas logo depois que o demônio começava a passar a língua em seu pescoço, Cândido acordava. Acordava sentado naquela velha cama, suando, com suas mãos segurando seu próprio pescoço. Um mês assim. Consegue imaginar?

Todas as noites sua mãe morria, todas as noites ele passava por aquele apuro de ser lambido por um monstro, que em seus sonhos se preparava para cravar os dentes em seu pescoço. Mas que ao mesmo tempo nunca terminava o serviço. E o motivo qual seria? Pura diversão ou um castigo? Certo vez, Cândido saiu do trabalho e foi para casa preocupado, algo lhe dizia que as coisas não estavam em seu devido lugar. Impressão ou fato, não importava.

Acelerou o passo e logo após passar pela porta de entrada, estranhou o silêncio que tomava conta da residência. Chamou por sua mãe, mas ela não atendeu. Um desespero bateu no coração do rapaz, que foi correndo até a cozinha, conferir se alguém estava ali. Para sua surpresa, quem estava era o demônio do sonho. Aquele ser surreal que a tanto tempo lhe provocava. Seu pior pesadelo parecia ter se transformado em realidade. O monstro lhe encarou e disse:

– Chegou cedo. Eu estava aguardando a sua mãe – falou, rindo.
– Mas, como foi você quem chegou primeiro, mudarei a sequência hoje! – e riu alto.

Cândido nem bem esperou o demônio terminar suas palavras e resolveu agir. Fazer algo contrário ao seu sonho, onde só ficava parado. Correu até a pia e pegou uma faca, para em seguida, partir para cima do demônio. O monstro era forte, mas depois de minutos medindo forças com ele, Cândido encontrou um modo de acertá-lo. Golpeando-o na garganta, dando um basta naquela vida insana e sem sentido que vivia nos últimos meses. Imediatamente, um sangre negro começou a escorrer. Aquele era o sinal da vitória. Riu, riu por que sabia que agora os seus pesadelos acabariam. Enquanto isso, o demônio se contorcia no chão e ao mesmo tempo, mudava de forma. O que é isso? – perguntava-se Cândido, que não entendia o que acontecia, pois o monstro estava se transformando. Da escuridão vêm o rubro, as cicatrizes.

– Ah, meu Deus, o que eu fiz? – disse o rapaz, chorando e olhando para a sua própria mãe, ali, morta no chão, diante dele. O demônio o havia enganado e Cândido acabou matando a própria mãe. Agora ela estava ali, na sua frente, morta como em seu sonho!

O resto de sanidade que restava no rapaz se dissolveu em poucos instantes. Já não agia mais usando a mente, tomou uma atitude apenas com o coração. Os que agem apenas com o coração, caminham mais próximos da morte. Levou a mesma faca que usou para matar sua mãe, à sua própria garganta e sentiu a lâmina rasgando sua carne – nesse momento, lembrou-se da língua do demônio que, em seus pesadelos, fazia o mesmo movimento que a faca – e o sangue começou a jorrar, trazendo memórias que remetiam a mais pesadelos, mostrando que o monstro era sempre ele. Um sorriso, que não era seu, mas não podia ser de mais ninguém.

Do sangue vêm a luz, para o bem ou para o mal. Acordou gritando, suado, sentado na cama, com as suas próprias mãos em torno da garganta. O grito foi ouvido no corredor inteiro e aos poucos a culpa se esvaziou de sua mente. Era inocente, era um homem infeliz. No balcão, onde estavam os dois enfermeiros do turno, começou uma conversa.

– Caralho! Ainda não me acostumei com esse novo maluco. Já faz um mês que ele está aqui, e, toda a noite faz a mesma coisa. Acorda no meio da madrugada, gritando desse jeito – disse Pedro.

– O doutor Marcelo disse que em breve, isso vai passar. Disse que o tratamento, logo vai fazer efeito – comentou João.

– Mas, afinal de contas, por que ele faz isso? – perguntou Pedro.

– Cara, eu acho que é trauma! Pelo que eu sei, o cara era normal, mas de uma hora para outra, ficou muito doido e começou a ter alucinações! Matou a própria mãe, depois chamou a polícia e disse que havia encontrado ela morta, assim que chegou do serviço. Sendo que nem emprego tinha, e ainda disse para as autoridades, que não teve tempo de matar o demônio. Aí o maluco tentou se matar também, mas não conseguiu. Após o incidente, trouxeram-no pra cá, e, desde então, acorda assim, todas as noites – finalizou João.

– Porra! É cada caso estranho que escuto. Parece que esse mundo está piorando – comentou Pedro.

– Hei, vocês! Chega de conversa. Eu quero dormir! – gritou um dos loucos.

Os dois enfermeiros esqueceram-se do que estavam falando e riram do doido, que queria privacidade. Entre sorrisos, continuaram esperando pelo final do expediente. Era apenas mais um monótono dia de serviço.

 

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