Guilherme

 

Olá pessoal este relato foi enviado por uma pessoa anônima que indentificou apenas que mora em SP.

Era uma noite de verão com uma lua nova, a única coisa que iluminava o céu, eram as estrelas.

Nós estávamos no carro, sem rumo, tentando matar o tédio. Coisa difícil quando se mora em uma pequena cidade do interior paulista. Éramos em cinco no total, minha namorada, o irmão mais novo (que não desgrudava dela), a prima deles, um amigo meu e eu, todos apertados dentro daquele Palio.

Depois de andar um pouco pela cidade, resolvemos sair da região mais urbana e pegar as estradas que circulam a cidade.
Depois de um tempo já estávamos em uma estrada de terra completamente escura, sem poste ou identificação nenhuma.
“Eu acho que a gente nunca passou por aqui antes” a minha namorada falou, e realmente eu não me lembrava de ter estado por lá antes. Como era um lugar “novo” resolvemos continuar em frente, e ver onde ia dar.
Depois de uns 20 minutos naquela estradinha, chegamos a uma bifurcação.
Uma das estradas que saía de lá, estava bem mal cuidada, parecia não passar carro por lá já fazia muito tempo, com o matagal já tomando a estrada de novo.
A outra estrada que saía da bifurcação, parecia ser a continuação da estrada que estávamos.
Como estávamos nos sentindo aventureiros, o meu amigo sugeriu pegarmos a estrada mais mal conservada, e foi o que fizemos.

Como ela estava muito ruim não pude ir muito rápido. A estrada passava por um terreno com uma vegetação baixa, mas a cerca de uns 20 metros à direita dela o matagal já virava uma floresta mais densa com árvores grandes, à esquerda a distância entre a floresta e a estrada já era uns 10 metros. Cerca de uns 40 minutos depois ainda estávamos passando pela estrada.
Então alguma coisa na nossa frente chamou a nossa atenção. Haviam umas árvores caídas no chão, bloqueando a estrada.
Nós pensamos o que fazer e depois de alguns minutos resolvemos tirar as árvores e continuar em frente.
Eu e o meu amigo descemos do carro e com algum esforço conseguimos limpar o caminho.
Então voltamos para o carro e continuamos a seguir a estrada.

Menos de 20 minutos depois, acabamos chegando no fim da estrada. Ela ia parar em uma casa.
Um casarão para ser mais exato. Nós achamos estranho ter uma casa daquelas ali, tão longe da cidade, quase escondida no meio do mato. E que casa! Tinha dois andares e um monte de janelas espalhadas por toda a fachada, contamos 8 em baixo e 9 janelas no andar de cima.
A porta de entrada era imensa, com uns degraus de pedra na frente, assim como os batentes.
A casa estava completamente acabada, as janelas pareciam estar podres.

Já que tínhamos tido tanto trabalho para chegar lá, resolvemos dar uma olhada dentro da casa. Só que como não tínhamos uma lanterna, eu deixei o carro apontando para as janelas e liguei o farol alto.
Apesar da aparência de podridão, a porta era bem sólida e pesada, e estava muito bem trancada.
O jeito foi tentar uma das janelas. Sem muito esforço, conseguimos abrir uma, que quase desmanchou quando puxamos. 
O meu amigo entrou primeiro, para dar uma olhada lá dentro, ver se o chão não tava podre, se o teto ou as paredes não pareciam que ia cair ou qualquer coisa assim do gênero.
Depois de algum tempo ele apareceu na janela de novo, falando que estava tudo bem.
Então o irmão mais novo da minha namorada entrou, depois a prima da minha namorada, depois a minha namorada e então eu.

Nós tínhamos entrado em uma sala, que parecia ser uma sala de jantar.
Ela estava quase vazia, a não ser por umas cadeiras velhas de madeira jogadas em um canto. O chão também era de madeira e rangia e estalava muito enquanto andávamos.
Abrimos mais duas janelas para iluminar melhor lá dentro.
Depois de dar uma boa olhada nessa sala, resolvemos dar uma olhada no resto da casa.
Essa sala tinha duas portas, uma porta dupla à direita, que ia para uma outra sala, onde estava a porta de entrada e uma porta menor à frente, que levava para a cozinha. Nós fomos pela porta dupla, indo parar em uma sala muito grande, a sala de entrada. Esta sala tinha a porta de entrada à nossa direita (frente da casa) e uma escada à esquerda que levava ao segundo andar, mas a escada estava completamente podre e quebrada, o que impedia que subíssemos para o segundo andar.

Nós abrimos algumas janelas para iluminar essa sala também. Nós só estávamos conversando e andando pela sala quando o irmão da minha namorada falou que escutou um barulho vindo do andar de cima.
Nós pensamos que ele queria simplesmente assustar a gente, então todos nós ouvimos o barulho.
Era o mesmo barulho que o chão fazia quando a gente pisava nele. “Deve ser a o barulho da casa acentando” o meu amigo falou, “é só a casa estalando, ela já está velha”. Então ouvimos o som de novo, e de novo.
Pareciam passos, em algum lugar lá em cima. Não dava para dizer direito de onde vinha.
Então todos, menos a prima da minha namorada, nos aproximamos da escada, para tentar ver se conseguia ouvir alguma coisa lá de cima. Então ouvimos o som de novo, três passos e de repente parou.

O irmão da minha namorada falou “será que tem alguém lá em cima?” mas ninguém respondeu.
Então nós ouvimos um grito estridente, mas não estava vindo de lá de cima, e sim da janela. Era a prima da minha namorada. Enquanto nós fomos ver a escada ela ficou na janela, olhando lá fora.
Ela veio correndo na nossa direção e começou a falar que tinha alguém o lado do carro.
Quando ela falou isso, eu senti o meu sangue esfriar e todos os pelos do meu corpo se arrepiaram.
A minha namorada grudou em mim e tremia toda. 
“Você tem certeza que você viu alguém do lado do carro?” o meu amigo perguntou. “Tenho, eu vi.
Eu não vi de onde veio, mas estava parado do lado da porta do passageiro!” Ninguém estava com a mínima coragem de ir ver se realmente tinha alguém lá. Então as luzes do farol começaram a ficar fracas.
“O que é isso? O que está acontecendo?” o irmão da minha namorada perguntou. “Acho que a bateria do carro esta acabando.” eu respondi. A minha namorada começou a apertar a minha mão e a chorar falando que aquilo não era hora para a bateria do carro acabar. Nós todos estávamos com medo.

Alguns segundos depois, a luz do farol do carro apagou completamente. Nós cinco ficamos no mais completo silêncio.
Então o meu amigo falou “alguém vai ter que ir lá no carro ver o que aconteceu, ou pelo menos ligar ele”, e claro que esse alguém era eu. Algum tempo depois eu resolvi que não tinha outro jeito, eu ia ter que ir lá fora mesmo, no escuro.
Eu falei que eu ia, e que era para eles ficarem onde estavam.
Eu tentei fazer o mínimo de barulho possível, até chegar na janela. Mesmo com os olhos acostumados com a escuridão, eu não conseguia ver nada, só uma sombra mais escura que eu esperava ser o carro, e só o carro. Eu pulei a janela e fui devagar, segurando a chave do carro.
Quando eu cheguei no carro, eu abri a porta e a luz interna acendeu. Eu achei isso estranho, já que se a bateria tivesse acabado, a luz de dentro do carro não acenderia.
Então eu vi que o farol estava desligado. Aí eu senti aquele arrepio subir a coluna de novo.
Apesar do carro estar destrancado, nós não ouvimos a porta abrir ou fechar, como é que alguém ia conseguir desligar o farol sem abrir a porta? E por que ao invés do farol simplesmente apagar, ele foi ficando fraco até apagar?

Eu acendi o farol e antes que eu pudesse pensar no que estava acontecendo, o resto do pessoal saiu voando pela janela da casa, berrando de pavor. A minha namorada e o irmão dela estavam chorando, a prima deles estava com uma cara de completo pavor e o meu amigo estava mais branco que uma vela. Eles praticamente se jogaram dentro do carro e começaram a gritar para eu trancar as portas e ir embora.
Sem entender nada, mas já completamente apavorado, foi exatamente o que eu fiz. Foi um alívio quando o carro pegou de primeira. Eu fiz a volta e disparamos pela estrada de novo. Eu perguntava o que tinha acontecido, mas a minha namorada só estava tentando acalmar o irmão dela, que estava chorando (assim como ela).
A prima deles estava muda e o meu amigo só falava para eu não parar, para continuar em frente.

Quando todos já estavam começando a ficar mais calmos de novo, a minha namorada e o irmão dela já tinham parado de chorar, a prima deles já estava falando (ela só falava “já estou melhor” e mais nada), eu virei para o meu amigo que estava no bando de trás e perguntei o que tinha acontecido. Quando eu estava olhando para trás, a minha namorada que estava no bando do meu lado berrou “PARA!!!!” Com o susto eu sentei o pé no freio. O carro derrapou um pouco, mas parou.
Todo mundo dentro dele voou para frente. Quando nos arrumamos dentro do carro de novo eu olhei para a minha namorada e perguntei o que era. Então eu vi que ela estava chorando de novo, apontando o dedo para a frente.
A mão dela tremia. Então eu vi o que era. A estrada estava cheia de árvores de novo, tampando o caminho.
“Vocês não tinha tirado as árvores do caminho?” a prima da minha namorada perguntou.
Eu falei que sim, que a gente tinha tirado. Isso foi o suficiente para o irmão da minha namorada começar a chorar de novo.
Eu comecei a olhar em volta, para ver se eu via alguém, ou alguma coisa.
Depois de um tempo eu olhei para o meu amigo e falei “A gente vai ter que sair para limpar a estrada.
Não tem outro jeito.” ele falou par eu passar por cima das árvores mesmo.
“Se eu for com tudo, o carro vai bater nos troncos, e ou vai ficar preso e a gente não sai, ou vai furar pneu, ou vai arrebentar alguma coisa e a gente também não vai sair daqui.
A única opção é a gente limpar a estrada”. Depois de um tempo em silencio ele concordou.

Nós dois saímos e fomos em direção às árvores tombadas no chão. A minha namorada fechou a porta do carro e as trancou (e ainda por cima com a chave dentro, legal ela, né?).
Dessa vez tinha muito mais árvores do que antes. Com muito cuidado e prestando atenção em tudo em volta nós começamos a arrastar as árvores para fora do caminho. Quando finalmente limpamos o caminho, olhamos um para o outro, com um olhar no rosto que dizia, vamos embora daqui.
Quando estávamos voltando para o carro, nós ouvimos um barulho no mato.
Nós paramos no lugar e olhamos à nossa esquerda. Não dava para ver nada, ainda mais com o farol do carro na nossa cara.
Então de repente alguns passarinho saíram voando de onde o barulho estava vindo.
Isso foi o suficiente para nós dispararmos em direção ao carro. O pior foi que quando chegamos lá, ninguém queria abrir a porta para a gente. A gente ficou batendo na janela, mas o pessoal dentro do carro só estava chorando e berrando.
Eu e o meu amigo já estávamos quase entrando em pânico, ele já estava procurando uma pedra para quebrar a janela para entrar no carro quando a prima da minha namorada finalmente destrancou a porta.

O meu amigo entrou pela porta do motorista mesmo e se jogou no banco de trás e eu fui atrás dele.
Mal eu sentei no banco já meti o pé no acelerador, a porta fechou com o carro disparando.
Mas apesar da velocidade com que a gente saiu, nós ainda conseguimos ver, saindo do meio do mato, alguma coisa, parecia uma mancha escura com formato humano. E era muito alto aquilo, parecia ter mais de 2,5 metros.
A minha namorada e a corajosa família dela se desesperaram quando viram aquilo. Começaram a chorar feito bebê assustado. 
Desde aquele ponto até chegar na estrada de terra eu não diminui a velocidade, estava indo com o pé no fundo.
O carro estava pulando mais do que boi bravo, naquela estrada esburacada e mal conservada.
Quando chegamos na estrada de terra melhor conservada, eu entrei com tudo e também não diminui a velocidade.
Chegando na estrada de asfalto, já estávamos um pouco mais calmos, e eu finalmente relaxei o pé no acelerador.
Ninguém falou nada até chegarmos na cidade.

Quando chegamos fomos direto para a casa da minha namorada. Os pais dela tinham saído.
Enquanto ela, o irmão dela e a prima deles entravam na casa, eu puxei o meu amigo para o canto e perguntei o que tinha acontecido dentro da casa para eles saírem correndo daquele jeito.
Ele falou que quando eu estava lá fora no carro eles ouviram mais alguns passos no andar de cima.
Eles ficaram prestando atenção se conseguiam descobrir o que era, quando de repente veio um som, do topo da escada, de como se alguém estivesse segurando a respiração e soltasse de repente.
Ele falou que depois disso veio um cheiro de podridão, como se tivesse algum bicho morto lá a mais de uma semana.
O barulho daquela respiração estranha já tinha assustados eles o suficiente para saírem correndo, mas bem nessa hora eu liguei os faróis do carro, então eles viram uma coisa meio sem forma que estava saindo da cozinha, mas parece que quando eu liguei o farol do carro, a luz assustou ela, por que ela voltou para a cozinha na hora. Foi ai que eles entraram em pânico e saíram correndo.
Ele falou que não deu para ver o que era direito, eles praticamente viram um mancha preta voltando para a cozinha só.

Até hoje eu não sei no que foi que a gente esbarrou. O irmão da minha namorada tem pesadelos até hoje com aquela noite e não gosta nem um pouco de falar no assunto. A minha namorada fica muito brava se eu tento fazer ela falar algo sobre aquela noite.
A prima deles é a única que fala alguma coisa mas também não gosta de falar muito no assunto.
Eu sei que além do susto todo que a gente tomou, a suspensão do meu carro ficou completamente arruinada depois da nossa fuga. Eu tive que mandar refazer ela toda.

Eu nunca mais voltei para aquele lugar e nunca mais quero voltar.
As vezes me perguntam onde é que fica, por que ninguém acredita na minha história, mas eu não falo.
Se aquela estrada estava bloqueada, deve ser por um bom motivo.

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